Reflexões sobre a Inspiração

Desde pequeno eu sempre tive muita imaginação. Para algumas pessoas, eu era um garoto inspirado, cheio de idéias. Para outros, eu sofria daquele excesso de energia que é sempre acompanhado com a frase “cuidado que o moleque é hiperativo”. Só sei que, com certeza, eu me diverti muito quando criança porque era a imaginação sempre foi a ferramenta que usei para transformar o mundo em algo estranho e ao mesmo tempo fantástico.

Hoje em dia, quando penso nas inúmeras aventuras que vivenciei através dos livros e brincadeiras de infância eu concordo com a expressão usada por Ziraldo no seu livro sobre o Menino Maluquinho. Eu sempre tive muitos “macaquinhos no sótão”! Adoro essa expressão porque que ela exemplifica bem quando sua mente se encontra em constante ebulição, em permanente processo de criação.

Ou seja, dentro da minha cabeça de criança eu sempre tive muitas idéias e personagens que faziam o que queriam, do jeito que queriam, sem que eu tivesse muito controle sobre eles. E isso era inspirador!

Atualmente, trabalhando com a área de criação e dedicando bastante tempo para desenvolver meus textos e projetos, muitas vezes eu fico relembrando toda essa época. Especialmente sobre como era fácil ficar inspirado e assim desenvolver novas idéias.

Esse texto então, é apenas uma parte dessa reflexão. Algo que surgiu depois de uma longa conversa que tive com alguns escritores onde discorro sobre, o que acredito ter, os quatro pontos principais que envolvem o dinâmico processo de se buscar a inspiração.

1. Antes de tudo. O que é a inspiração?

Para muitos, a inspiração é uma palavra misteriosa e complexa que permeia diversos campos do conhecimento e que pode e vem sendo interpretada de diferentes maneiras.

Inspiração não é apenas uma lâmpada que se acende ou apaga. Ela na realidade é um sistema elétrico complexo que pode ser aberto e fechado se soubermos como.

No conceito biológico, a inspiração é o processo de sugar o ar para dentro do organismo, para depois liberá-lo, realizando assim um ciclo respiratório.

No conceito teológico, a inspiração acontece em obras e feitos de seres humanos que estão intimamente ligados a Deus, de tal forma que suas palavras expressem, de alguma maneira, uma revelação divina.

Na Grécia antiga toda inspiração artística ou científica era fruto das Musas, entidades mitológicas filhas de Mnemósine e Zeus. Essas musas cantavam o presente, o passado e o futuro acompanhados pela lira de Apolo, causando assim o deleite das divindades do panteão.

E por fim, no contexto das escrituras tradicionais Hindus, inspiração tem a ver com o entendimento de seu interior, uma compreensão que surge como uma dádiva divina, mas que também é uma manifestação que se origina dentro de nós, através de toda a nossa experiência.

E atualmente, a inspiração é algo que existe dentro do ser humano e que o motiva a desenhar, pintar, construir, tocar uma música, escrever ou mesmo, criar novos projetos. Algo que muitas pessoas consideram como uma sensação, um pensamento, sussurro ou ideia que surge “de repente”.

Eu não concordo com esse pensamento. Na minha opinião, a melhor explicação está justamente relacionada ao conceito biológico que citei no início. Ou seja, a inspiração é um processo, um ciclo. Não é apenas uma lâmpada que se acende magicamente, ela está mais para um sistema elétrico que pode ser aberto e fechado dependendo dos impulsos corretos que enviamos e recebemos e principalmente na energia que dispendemos para desenvolver essa habilidade.

Sendo assim, o primeiro ponto que podemos tirar disso é o seguinte:

A Inspiração é um sistema que pode ser ligado e desligado por você.

2. Inspiração x Transpiração:

Dizem que a frase “talento é 1% inspiração e 99% transpiração” foi cunhada por Thomas Edison. Não consegui achar a fonte que comprovasse essa afirmação mas, posso dizer que concordo inteiramente com o conceito.

Não importa se você tem uma boa ideia a cada segundo se você não consegue colocá-la em prática. Uma ideia sozinha não vale nada se você não puder colocá-la em prática. Então aqui vai uma frase que eu criei e que sempre uso para me lembrar disso.

De boas idéias, o lixo está cheio!

Em um outro artigo que escrevi eu comento justamente isso. Às vezes você pode ter apenas a vontade de rascunhar algo sobre um tema. Quem sabe para aproveitar o momento para colocar todas as “ideias” no papel.

No entanto, lembre-se que nem tudo o que você rascunha será um diamante bruto. O mais provável é que tudo o que está criando não passa de um pedaço de vidro sem valor, apenas mais um apanhado de palavras com um valor insignificante. No entanto isso não é ruim se você aceitar que esse rascunho pode se tornar algo mais completo.

A verdadeira inspiração não é uma ideia aleatória que explode na sua cabeça de vez em quando. A verdadeira inspiração precisa ser alimentada com muitas referências e rascunhos que pouco a pouco vão tomando forma dentro da sua cabeça. Ou seja, é através de muita transpiração que conseguimos transformar um rascunho em uma ótima história e um grande projeto.

E o mais importante. Não tem problema se aquele rascunho está ruim! Você escreveu e agora tem um pedaço a mais para desenvolver toda a sua ideia. Ou seja, arquive e busque criar mais pedaços, conectando assim com os outros pedaços para assim desenvolver o mosaico que vai se tornar sua criação.

É sempre assim. Se você quer ter boas ideias e criar grandes histórias, primeiro você tem de alimentar a sua inspiração. Leia livros sobre o tema, acompanhe os trabalhos de outros profissionais, escute boas músicas, participando de cursos, etc. E o principal, pratique sempre que puder para assim treinar novas técnicas e assim aproveitar o máximo dos rascunhos que estão borbulhando e surgindo nessa sua cabecinha doida.

Além disso lembre-se. A única maneira de se inspirar bem, não é só rascunhar, mas também é refletir sobre como fazer melhor. Só assim você treinará sua capacidade para usar as palavras, aproveitar boas ideias e referências, mesclando diferentes fontes para assim criar idéias inovadoras e interessantes.

O segundo ponto que podemos refletir então, é o seguinte:

A Inspiração só funciona se você trabalhar e desenvolver diversos rascunhos.

3. Mens sana, in corpore sano:

“Uma mente sã num corpo são”. Uma famosa citação latina, derivada da Sátira X do poeta romano Juvenal. Uma frase criada pelo autor como parte da resposta à questão sobre o que as pessoas deveriam desejar na vida.

Eu já escutei de diversos profissionais e teóricos que só mantendo o corpo e a mente sã é que você pode manter sua inspiração e ter energia para assim criar grandes projetos. No entanto, eu fiquei pensando muito sobre essa tópico e como iria discorrer sobre ele e devo dizer que o termo “sã” é relativo.

“Beber é algo emocional. Faz com que você saia da rotina do dia-a-dia, impede que tudo seja igual.” — Bukowski.

O meu processo de criação está totalmente ligado a um processo de equilíbrio ou desequilíbrio entre minha mente e o corpo. Um efeito muito característico para mim, talvez por causa da minha hiperatividade.

Por exemplo, quando deixo de dormir ou treinar, minha mente entra em um processo de desequilíbrio e eu fico tomado por uma quantidade de idéias aleatórias, macaquinhos loucos que brotam e morrem sem parar. Fico sem foco e só descanso depois de colocá-los no papel.

As vezes, essa anotação aleatória tem valor, outras, ele é apenas um pedaço de vidro que deverá ser retrabalhado para assim se transformar em um texto mais elaborado.

Assim, eu considero o termo da “sanidade” como relativo porque existem idéias e textos maravilhosos criados por grandes pensadores e escritores que só foram inspirados porque encontraram uma maneira de criar mesmo tendo a cabeça cheia de problemas ou de outros “compostos”.

Charles Baudelaire, Edgar Allan Poe, Jack Kerouac, Aldous Huxley, Bukowski e Stephen King são apenas alguns dos muitos criadores que conseguiram externar sua inspiração, construir seus textos e escrever grandes obras apesar de todo o desequilíbrio entre corpo e mente.

Assim, podemos pensar que a inspiração é um sistema que depende dos impulsos corretos, de saber trabalhar com as ideias e as fazer funcionar, de conseguir martelar e transpirar as frases, sentenças e verbos enquanto você se agarra e sobrevive no equilíbrio e desequilíbrio do mundo à sua volta.

Sendo assim me pergunto. Quem disse que não podemos usar os problemas e os desafios como um combustível que alimente a nossa máquina da inspiração?

Dessa maneira, deixo um terceiro ponto de reflexão:

Não importa o que os outros digam. Encontre o seu próprio equilíbrio.

4. Nada do que você cria é original!

Agressivo esse título não? Ok. Deixe-me explicar melhor.

Há mais de 200 anos Lavoisier propôs o princípio da conservação de massas, muito conhecido pela frase: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Acredito que inspiração, as boas idéias e os bons textos também seguem essa lei. Nada do que você cria hoje é 100% novo e nem foi inspirado pelos céus como se surgisse do nada. O mais provável é que sua idéia seja uma mistura das notícias que leu recentemente, misturado algumas cenas de um série do Netflix mais uma pitada de um jogo de computador ou uma conversa aleatória que teve com os amigos.

Nossos textos, bem como nossas criações, fazem parte de um processo de criação e desenvolvimento que acontece em todo o mundo e que mudam a todo o instante. No entanto, todos eles seguem uma linha de conteúdo e influências, em um dado momento do tempo e espaço, do grupo social onde estamos inseridos.

Quer dizer então que nunca vou escrever nada de novo? Sim e não. Significa que você tem de estar ciente de quais são as suas influências para, a partir disso, executar e criar a sua própria interpretação daquele assunto.

Você pode ter sido influenciado por um pesadelo, um livro de fantasias que foi lançado na semana passada, um novo autor ou uma referência jogada em uma série de TV. Mas se você souber disso, você pode criar e desenvolver um rascunho mais trabalhado, com menos chavões e frases prontas, um projeto onde você pode colocar um pouco mais de você.

Um ótimo exercício é você identificar quais são as suas principais influências, analisando as influências das pessoas que você mais gosta. Assim, você pode entender o que ele criou em cima de cada uma dessas influências. Ou seja, o que eles criaram de novo.

Digamos por exemplo que você queira entender mais sobre o processo de criação do escritor J.R.R.Tolkien. Autor que, em 1928 escreveu o livro O Hobbit. Ok. Legal! Pra começar, quais foram as influências de Tolkien para escrever a história de Bilbo? Bem, além de escritor, ele era professor de linguística, serviu como soldado na primeira guerra mundial, amava o poema épico anglo-saxão Beowulf e quando criança, sua mãe, Mabel, lia para ele e seu irmão e depois os fazia ler, contos de fada em latim e grego.

Essas e muitas outras influências criaram a base para que o professor Tolkien escrevesse o Hobbit e depois o Senhor dos Anéis. Obra hoje mundialmente conhecida porque já virou diversos filmes, games e quadrinhos.

Mas de onde vieram cada uma dessas referências e idéias? Quais foram os eventos que Tolkien viveu para influenciar cada um de seus textos? Essa é a grande reflexão que falta ser feita sobre o seu trabalho e o trabalho de muitas outras “pessoas inspiradas”.

Apenas com essa reflexão é que poderemos fechar, ainda mais, a nossa busca por novas inspirações. Para assim criar diversos rascunhos e, através de muita transpiração e quem sabe um bom copo de vinho, desenvolver uma grande ideia, ou um grande projeto.

Dessa maneira, o quarto ponto de nossa reflexão seria:

Nada é totalmente original. Mas isso não impede que você crie a sua própria versão!

5. Para finalizar a reflexão:

Acho importante repetir que todos os pontos apresentados acima, de nenhuma maneira formam um processo inovador ou infalível.

O que posso afirmar é que muitos dos itens acima já me ajudaram na reflexão de idéias e no desenvolvimento de novos projetos.

Sendo assim, não fique esperando a inspiração surgir do nada. Crie seu próprio processo de trabalho com muito estudo e páginas revisadas. E não deixe de martelar! Inspiração e transpiração andam juntas sempre.

Crie seu próprio caminho! Trabalhe sempre suas idéias e seus rascunhos.

Espero que algumas dessas palavras possam ter te ajudado no processo de criação. Se sim, deixe seus comentários. Senão, ainda assim, deixe seus comentários. Assim todos os meus rascunhos poderão ser melhorados.

Agradeço os comentários e até o próximo texto! 😉

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

© 2023 Explorando Segredos e Mistérios – Todos os direitos reservados.