Por onde começar a ler H. P. Lovecraft?

Artigo escrito por: Rafael Berlim (rafaelmberlim@hotmail.com).


Talvez a primeira pergunta que surja ao ler esse título é: porque haveria uma melhor ordem de leitura de H. P. Lovecraft?

Dois pontos norteiam a ideia de que existe uma ordem preferível de leitura. Com certeza não é aplicável para todos os leitores, mas, para quem deseja desbravar os mistérios do Cavalheiro de Providence, esse guia irá ajudar a contornar alguns dos problemas que acometem os marinheiros de primeira viagem. Isso porque os mares lovecraftianos são bravios, extensos e pouco convidativos a novatos. No entanto, existem ilhas paradisíacas e continentes recheados de vida e maravilhas para quem se lança sem amarras.

Os principais desafios

O primeiro desafio a ser superado é a ideia de que são contos aterrorizantes, repletos de violência, gore, monstros sanguinários que te farão saltar da cadeira e dormir de luz acesa, e temáticas sobre como o ser humano sabe ser mal. Não é isso que se encontra nas páginas de seus livros. Nas dezenas de obras de Lovecraft, o leitor é confrontado com um outro tipo de horror, um tipo diferente, que, a princípio, não parece ser capaz de assustar.

Imagine que você é um explorador de cavernas do nosso mundo real. Nesse cenário, ainda não encontramos quaisquer evidências de vida extraterrestre, não existem sequer fósseis de microorganismos em Marte, nem respostas às nossas mensagens de rádio enviadas para o cosmos infinito. Estamos sozinhos.

Imagine que você adentra uma galeria de cavernas já catalogada, sem novidades e, por puro acaso, acaba caindo por uma fresta escondida entre duas grandes rochas. A corda presa à superfície salva você da morte certa, mas quando você decide iluminar seu entorno, o que você vê é algo além de mais rochas e formações naturais. Você vê uma pirâmide. Colossal. E ela contém traços de todas as civilizações extintas de todas as eras. E em suas paredes, entalhes em baixo relevo de criaturas jamais vistas ou classificadas pela ciência. E nesses entalhes, os homens se ajoelham perante essas criaturas. Essas gravuras trazem
registros detalhados da chegada das criaturas vindas das estrelas. Em seguida, você distingue, em meio ao choque e à loucura, que essas criaturas foram destruídas por outras ainda mais terríveis, vindas de lugares mais distantes ainda. Nesses baixos relevos estão descritos fatos de milênios perdidos no tempo.

Eis o primeiro contato com o extraterrestre, mas não de uma forma crescente e saudável. A realidade surra sua mente com a verdade de que tanta coisa já existiu e sempre esteve ali, ao nosso alcance, mas nunca fomos capazes de encontrar. O horror lovecraftiano não traz familiaridade. Ele descreve encontros com deuses e raças perdidas, com criaturas vistas apenas em sonhos e nos coloca no lugar certo: no ponto mais baixo e primitivo da cadeia alimentar.

O segundo e provavelmente maior desafio seja a forma de escrita de Lovecraft. Talvez você seja um amante do horror, talvez você tenha vontade de conhecer os Mitos, talvez você seja um leitor assíduo. Contudo, a obra de H. P. Lovecraft possui tantos obstáculos que podemos dizer que o caminho natural é o abandono.

Lovecraft descrevia o incompreensível. Portanto os textos são abarrotados de adjetivos. E esses adjetivos muitas vezes não trazem descrições físicas como “alto, forte, magro ou feio”, mas descrevem impressões, sensações e humores como “terrível, abominável, inominável …”, e esses adjetivos não tornam mais claro o que está tentando ser descrito.

Embora proposital, a falta de clareza afasta aqueles que buscam algo mais concreto. Praticamente não há diálogos. Os textos corridos são 98% compostos de narrações e descrições de sensações e ambientes.

Por último, os protagonistas, logo, os narradores, são quase sempre acadêmicos ou eruditos. Quando não necessariamente professores, são amantes do conhecimento. Portanto, suas próprias maneiras de se expressar são muitas vezes técnicas. O maior exemplo está no conto Nas montanhas da loucura, que, apesar de ser um dos preferidos dos fãs, é inegável que possui um início complicado e travado, visto as mais de 10 páginas em que o narrador se propõe a explicar o método usado pelas expedições na Antártica para perfurar as grossas camadas de gelo e esmiuça quais as melhores brocas para o serviço. Essa densidade do texto é responsável por afugentar muitos iniciantes, que se veem desmotivados a seguir a leitura.

Daí a ideia de uma ordem ideal. O objetivo é elencar contos mais curtos, para que novos leitores possam atravessar rapidamente essas barreiras e chegar ao tesouro escondido no fundo do baú, a recompensa por tamanho esforço. É difícil esquecer o impacto das primeiras leituras, quando se atinge a última frase e se depara com a genialidade do autor.

A melhor ordem de leitura


A acostumação ideal leva de 4 a 6 contos, sendo os breves os melhores para esse fim. Pelo tamanho, é menos provável se perder na leitura (embora isso possa ocorrer no primeiro contato) e a recompensa é atingida mais facilmente.


Eis a lista:

Comece com Dagon (1917). São apenas 6 páginas (dependendo da edição) de uma narrativa que encerra todos os elementos que tornam Lovecraft tão fascinante: o encontro com o incompreensível, a loucura que emerge e domina e o final arrebatador.

Em seguida, leia O modelo de Pickman (1926). Nas 12 páginas temos um salto na narrativa. O mistério começa nos primeiros parágrafos, com um vislumbre do que aconteceu no final do conto e as consequências que os fatos tiveram na mente do narrador. Sabendo do fim terrível que o aguarda, o leitor entra numa espiral de paranoia, e o ar soturno aliado a um personagem misterioso conduzem a trama ao clássico final que te faz prender a respiração.

Com coragem, encare A cor que caiu do espaço (1927). Temos uma pequena amostra das características que tornam a escrita de Lovecraft proibitiva nas 29 páginas, pois a ausência de diálogos e a narrativa densa podem cansar o leitor desavisado. Mas há grandes recompensas para quem persistir, pois o estranhamento crescente dessa narrativa é simplesmente inacreditável. A sucessão dos fatos cada vez mais bizarros e a descrição do que acontece com a pobre família de fazendeiros poderá tornar o ato de sonhar não tão tranquilo quanto deveria ser. E acredite, ao final do conto, você terá medo de uma cor! Lovecraft não é apenas horror. Há beleza em seu universo, e uma beleza inigualável. Intercale as histórias aterrorizantes com algumas de suas obras oníricas do Ciclo dos Sonhos.


O quarto conto é O navio branco (1919). No término da leitura, uma outra faceta de H. P. Lovecraft ficará evidente. É neste conto que se nota a efetividade dos seus adjetivos, pois a beleza dos lugares oníricos está presente naquilo que o narrador quer muito contar, mas não consegue em termos concretos, restando apenas as emoções que o invadem naqueles eternos paraísos. Lovecraft não apenas perturba seus sonhos, ele também é capaz de acalentar e conduzir a reinos de encanto e graça infinitos.

Siga então para Celephais (1920). Ambos são contos semelhantes, o fascínio de O navio branco está também aqui, mas nota-se uma jornada mais concreta. O protagonista tem nome e objetivo e você o segue nas breves 6 páginas rumo a um final surpreendente. Não se prenda aos nomes de pessoas e lugares que parecem soltos no texto. O objetivo deles é dar estofo ao Mundo dos Sonhos, dar a impressão de um lugar habitado. A forma natural de narrativa e a falta de uma descrição dos lugares faz parecer que você já os conhece e torna-os familiares. Pense comigo, nenhum turista chegará em sua cidade natal e a descreverá para você, pois ele deduz que você a conhece bem. Esse é o objetivo e o efeito proposto por Lovecraft.

Termine essa pequena maratona com outro conto curto do Mundo dos Sonhos. Os outros deuses (1921) abre mão do encanto para transitar em terrenos mais sombrios. Temos um forte caráter sugestivo, visto que poucas explicações são dadas e a inquietação se mantém. E mesmo tendo apenas 5 páginas, todas são brilhantemente preenchidas com horror cósmico. Não se engane, Os outros deuses traz a união ideal do terror dos Mitos de Cthulhu com o fascínio do Ciclo dos Sonhos.


Tendo enfim adquirido certa familiaridade com a forma de escrita e os temas de H. P. Lovecraft, depois da leitura desses 6 contos, você estará preparado para empreitadas mais ousadas. O chamado de Cthulhu, Os sonhos na casa da bruxa e O horror de Dunwich são contos um pouco maiores, passando das 30 páginas cada, mas tenderão a ser pouco intimidantes. A certeza de uma trama de horror crescente e imprevisível, o fascínio causado pelo preciso arranjo de palavras e a expectativa por um final de cair o queixo se tornam os propulsores de cada leitura.

Dicas importantes


Não tenha pressa. Os fãs e conhecedores da obra são efusivos e empolgados ao falar de Nas montanhas da loucura, A sombra sobre Innsmouth, Um sussurro nas trevas e A sombra vinda do tempo. De fato, grande parte do valor da obra lovecraftiana reside nas novelas e contos mais longos, pois neles a mitologia se expande, as mais interessantes conexões com outras obras são pontuadas ao longo do texto e o efeito de desorientação e loucura se torna mais palpável. O leitor mergulha na história para emergir com as mesmas inquietações dos personagens.

Essas obras sempre estarão lá, prontas a serem desvendadas. Mas antes, assimile as obras curtas e se familiarize com o autor, pois é garantido que um maior conhecimento prévio dos Mitos tornará cada leitura muito mais instigante. A primeira leitura é a que crava as marcas mais profundas.

O caminho para se tornar um profundo conhecedor na obra do mestre do horror agora não parece tão complicado. Lhe oferecemos os sapatos. Dê o primeiro passo!

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